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Despertando um propósito

Por Ruy Shiozawa e Daniela Diniz, para Blog da Liga


Quando olho para as minhas filhas, Isabel e Clarice, percebo claramente que elas têm uma causa, um propósito. Elas não estão necessariamente com todas as ideias perfeitamente claras ou com todos os detalhes bem definidos, mas a essência está lá, bem forte. Isabel, por exemplo, acaba de gravar um vídeo para um processo seletivo (https://goo.gl/Vwd4tg) onde explica que quer agir na transformação do mundo, através da Educação de crianças e adolescentes.


Clarice se mobiliza contra as desigualdades e injustiças e aos 16 anos já tinha escrito ótimos textos sobre a situação do trabalhador rural no interior de São Paulo e o por quê das diferenças da Educação no Brasil e no Japão.


Pensando nisso, rebobinei o filme da minha vida e percebi que também sempre tive na minha essência o propósito de construir uma sociedade melhor. Mas o caminho para esta causa seguiu trajetos variados e em cada um deles fui aprendendo algum aspecto para compor uma figura mais detalhada. Vejamos algumas destas etapas.


Cena 1 – Ditadura Militar, início da década de 70


Se o meu propósito era ajudar a construir uma sociedade melhor, fatalmente tinha que me chocar com a ditadura militar a qual estivemos submetidos por difíceis 21 anos, debaixo de censura, tortura e cerceamento de direitos. Descobri recentemente, visitando os antigos arquivos do DOPS, que minha vida era vigiada e meus dados pessoais, endereço, placa da minha moto e reuniões que frequentava eram monitorados. Por isso, quando o Brasil recuperou o direito de votar em 1985, uma sensação de vitória reforçou as minhas convicções.


Cena 2 – Escola Politécnica da USP, final da década de 70


A minha militância política não me fazia ser um aluno dos mais assíduos. No entanto, em uma disciplina em particular tive 100% de frequência e nota máxima: Organização do Trabalho. O Prof. Afonso Fleury (http://goo.gl/KkxLGV) influenciou fortemente as minhas ideias atuais ao mostrar, por exemplo, que o modelo de organização taylorista tratava o ser humano como um completo imbecil e por isso definia exatamente o que e como cada trabalhador deveria fazer, sem permitir que pensasse, sob a alegação de aumentar a produtividade.


Ao mesmo tempo me mostrou que grupos semi-autônomos na Escandinávia davam autonomia e flexibilidade aos funcionários, mesmo em modelos de produção que exigiam turnos rígidos. Claro que os resultados neste segundo caso eram expressivamente superiores, com pessoas muito mais comprometidas. Após este curso, percebi que a transformação social poderia ser fortemente impulsionada através das excelentes empresas – e não contra elas. Ou seja, o segredo não estava em separar empresas de um lado e funcionários de outro, mas sim separar as excelentes empresas das demais, da mesma forma que também existem excelentes pessoas e profissionais de um lado – e, de outro, corruptos e sem caráter! Por isso, recentemente retornar à sala de aula do Prof. Fleury e bater um papo com seus alunos atuais do mesmo curso foi uma emoção muito grande!


Cena 3 – Domenico de Masi, início da década de 90


Nos anos 80 eu trabalhava em uma grande multinacional. A empresa possuía um refeitório que funcionava das 7h às 8h para um café e das 12h às 14h para o almoço. Horários rígidos para, novamente, “não perder produtividade” com interrupções.


Por isso, quase entrei em choque quando li que uma outra multinacional, avaliando a eficácia de seus escritórios no mundo todo, descobriu que o escritório italiano era expressivamente mais produtivo que os demais. A equipe designada para visitar a unidade em Verona viu que o segredo não vinha de técnicas mirabolantes ou uma tecnologia disruptiva, mas sim do fato de que o sociólogo Domenico de Masi (https://it.linkedin.com/in/domenicodemasi/en), muito antes de escrever seu best-seller “O Ócio Criativo”, havia feito uma série de recomendações à empresa.


Uma delas era a existência de um café dentro da empresa, muito bem montado e bonito, aberto 24 horas por dia, o que atraia os funcionários a frequentá-lo. Resultado: as pessoas se encontravam, se integravam, trocavam informações, resolviam problemas de processos, na hora, evitando centenas de memorandos inúteis e reuniões infindáveis. Por isso, também foi uma emoção muito grande conhecer o sociólogo pessoalmente no ano passado e discutir detalhes deste caso, o que reforçou ainda mais minhas crenças e meu propósito.


Cena 4 – José Tolovi Jr., todo o tempo


Todas estas cenas se juntaram e fizeram sentido quando conheci o irrequieto e visionário empreendedor brasileiro José Tolovi Jr. (https://www.linkedin.com/in/josetolovijr/pt). Trabalhei alguns anos com ele e percebi que ele havia colocado em prática em sua empresa tudo aquilo que eu havia estudado e experimentado.


Um excelente lugar para trabalhar gera um poderoso impacto sobre as pessoas que, mais comprometidas, geram resultados excepcionais para as empresas e replicam, através do exemplo, as excelentes práticas para outras organizações e para a sociedade como um todo. Em 1997, Tolovi criou aqui no Brasil o primeiro ranking no mundo das Melhores Empresas para Trabalhar e internacionalizou estas ideias, atingindo mais de 50 países. Estava claro que era para isso que eu queria dedicar a minha energia e por isso ele tornou-se meu mentor informal.


Levou algum tempo para nos juntarmos novamente, mas em 2008, quando Tolovi me delegou a tarefa de coordenar o escritório do Great Place to Work no Brasil, tive a certeza de que estava executando o propósito da minha vida.


A Missão GPTW de “construir uma sociedade melhor, ajudando empresas a transformar seu ambiente de trabalho” conseguiu sintetizar tudo aquilo em que eu sempre acreditei mas levei algumas décadas para organizar.


Os milhões de colaboradores de empresas pesquisadas todos os anos são muito claros ao declarar por que suas empresas são excelentes: eles sentem orgulho do trabalho que fazem, pois existe um propósito; existe um espírito de equipe e colaboração entre as pessoas e, finalmente, confiam nas pessoas para quem trabalham. Ou seja, significado do trabalho, colaboração e confiança constroem um Great Place To Work! Confiança é essencial na empresa, na Família, no País!


Por isso quando vejo minhas filhas iniciando a vida adulta cheias de dúvidas, mas com uma essência e um propósito muito fortes, tenho certeza de que elas irão pavimentar o seu caminho rumo a este propósito. Mesmo que leve algum tempo, como foi no meu caso. No Brasil temos ainda quase tudo por fazer, mas com certeza estamos avançando um pouquinho, todos os dias.


Melhores dias e um melhor País para todos nós!!

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